domingo, 13 de setembro de 2015

Hoping for monday

Hoje dei por mim ansiosa pela segunda-feira. Não porque o dia tenha sido mal passado, que não foi, mas porque está a tornar-se muito mais fácil trabalhar do que fazer outra coisa qualquer.
No trabalho não tenho tempo para pensar nos meus problemas. No trabalho não tenho, sequer, tempo para ter problemas. No trabalho, os problemas não são meus, são dos pacientes e eu tenho os meios de que preciso para os poder resolver, que é bem mais do que posso dizer sobre os meus próprios problemas. No trabalho, não tenho ninguém que me possa desiludir (tenho pacientes que, às vezes, me irritam solenemente, mas não posso dizer que me desiludam).

Quando penso em mim, sou obrigada a dizer que fui uma criança muito feliz. Até ao dia em que dei por mim no meio duma guerra que não me dizia respeito e da qual não queria fazer parte. Dei por mim a tentar fazer malabarismos entre o meu próprio sofrimento e o sofrimento em que via outras pessoas, a tentar fazer os possíveis para não desagradar a ninguém enquanto tentava continuar a ser uma criança e, depois disso, uma adolescente. Sim, porque não há nada de que uma adolescente sensível com as hormonas ao rubro precise mais do que dramas familiares em relação aos quais não pode fazer nada, senão assistir e rezar para que tudo acabe depressa. Inevitavelmente, cheguei à idade em que me começou a ser permitido decidir o que queria. E os dramas continuavam, alguns diferentes, alguns iguais, mas todos continuavam a não me dizer respeito. O problema de ter idade para decidir o que queria é que eu não fazia a mínima ideia do que queria, só do que não queria. Fiz muita gente zangar-se, imagino que os tenha magoado também, mas quem não aguentava mais ser magoada era eu e, a bem da verdade, não tinha sido eu a começar isto. Tive que ser egoísta, mas foi uma altura muito decisiva na minha vida: ou virava às costas, ou nunca mais ia conseguir sair do buraco negro em que vivia. Hoje estou contente por ter virado as costas. Com o tempo, os ânimos acalmaram-se, as relações restabeleceram-se, nunca mais seriam as mesmas, mas ao menos não estavam perdidas. Consegui deixar o que era mau para trás das costas, mas tudo deixa marcas.

Hoje, considero-me uma pessoa feliz. Tenho as minhas pancas, mas ora bolas, quem é que não tem? Aprendi muita coisa ao longo dos meus 26 (quase 27!) anos e tenho muito mais experiência de vida do que alguém com a minha idade deveria ter. Mas tenho-a e não me é inútil. Mas aqui entra a parte que me faz rezar para que seja segunda-feira. Aqui entra a parte em que as várias partes do meu cérebro andam à luta umas com as outras, o que resulta em dores de cabeça monumentais. Dum lado, tenho a pessoa minimamente normal que considero ser e que gostava de um dia assentar arraiais e ter a sua própria família, com direito a casa, cão, putos ranhosos e tudo. Do outro lado, tenho a pessoa que viveu a minha vida e que acha que eu estou louca, que nem sequer sei o que é ter uma família, como é que vou ser capaz de criar a minha, por amor aos santinhos, que me deixe de ideias malucas que já há demasiadas crianças traumatizadas no mundo, não preciso de arranjar mais umas.

Será que conseguimos ser diferentes do que os exemplos que tivemos toda a vida? Gosto de acreditar que sim, mas continuo a ter as minhas sérias dúvidas. 

E é para deixar de pensar em tudo isto que quero desesperadamente que seja segunda-feira.

10 comentários:

  1. Eu acho que só essa auto-reflexão já é sinal de que tens as condições para atingires o teu objectivo. Enquanto tiveres auto-reflexão irás sempre questionar o que fazes e tentares melhorar se for preciso. Há muita gente que nunca pára para pensar nas consequências das suas atitudes e cá para mim é isso que lhes permite continuarem a magoar os outros. Além disso, pareces saber o quanto certas coisas magoam por as teres vivido na pele, o que em princípio te vai impulsionar a evitar submeter os teus futuros filhos a isso. É verdade que muitos "abusadores" (uso esta palavra no sentido lato) foram crianças "abusadas", mas com consciência e auto-reflexão o ciclo não tem de continuar.

    E cá noutro ponto geográfico, também fico contente por ir para a universidade ou para o trabalho e ter coisas com que me distrair.

    Beijinho e boa semana

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    1. Acho que tens razão, mas uma pessoa tem sempre medo daquilo de que é capaz... mas optimismo é o que é preciso! E muito juizinho (=

      Beijinhos

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  2. Não há nada melhor do que construirmos a nossa própria família... custa, dá trabalho, vão haver momentos menos bons mas vale muittttttttttttttttttoooooooooo a pena... e já agora, putos ranhosos dispenso... ehehehe... tens tudo para ser feliz... o passado só nos torna mais fortes...

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    1. Os putos não são todos ranhosos? =P

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    2. Se são... até no verão...grrrrrr...

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  3. Ai como te compreendo... mas muita força! Tenho a certeza que esse esforço vale a pena!!!
    beijinhos
    http://direitoporlinhastortas-id.blogspot.pt/

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  4. claro que somos capazes de fazer diferente e melhor :)

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    1. Vamos acreditar que sim, pelo bem da nossa sanidade mental (=

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  5. Aiii ta la caladinha que eu, à distancia destes anos e kilometros todos, tenho a certexa que davas uma mae do carago!*

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