quarta-feira, 9 de março de 2016

Um país ao contrário

Voltei hoje de Portugal. Foi mais uma visita relâmpago, mas não me posso queixar. Sei muito bem que não são todos os emigrantes (e tantos que nós somos!) que têm a sorte de poder ir a casa todos os meses, como eu. É bom ir regularmente a casa, ver os meus sítios e as minhas pessoas, comer a minha comida, dar passeios. São dias que me fazem sentir que nada mudou (quando, na realidade, a minha vida está completamente diferente).

Passaram quase dois anos desde que comecei esta aventura por Troyes e é com alegria que posso dizer que o resultado está a ser positivo. Estou num ponto da minha vida profissional que nunca atingiria em Portugal, pelo menos, não nos próximos 20 anos. E isso é uma conclusão que não me dá alegria nenhuma.

É extraordinária e assustadora a quantidade de emigrantes portugueses que vejo nos aeroportos por onde passo. A quantidade de gente que teve que deixar Portugal em troca duma vida digna. É triste. É triste ver um país que tem tudo para dar certo, mas que continua a insistir em seguir maus caminhos. Um país onde nos falam de melhorias, mas onde tudo continua igual. Onde não há soluções para a precariedade. Onde as pessoas continuam a trabalhar muito mais do que as 40 horas semanais que deviam em troca de 500€ e acham isso normal! Onde anda tudo desesperado à procura duma merda dum estágio profissional, onde os recibos verdes e os contratos a termo são o prato do dia! Isso e o desemprego, porque continuamos a formar profissionais indiscriminadamente, sem ter minimamente em conta as necessidades reais do país. E depois qual é a solução? Emigrar. Emigrar ou ir para o desemprego e contribuir ainda mais para os problemas dum país, que já está completamente esgotado e saturado. Falando do caso que conheço mais de perto, o da minha área, a Medicina Dentária, a coisa já chegou ao ponto em que uma pessoa sente que estão a gozar connosco. Já está mais que comprovado que Portugal tem dentistas a mais, até para emigrar estão a começar a ser demasiados! Mas temos uma (des)Ordem que continua a atirar areia para os olhos das pessoas, a fazer-nos passar por mal agradecidos, a dizer que as coisas não estão assim tão más e ano após ano, continuam a entrar centenas de alunos para as faculdades. Vejo na OMD o retrato do país: um bando de pavões arrogantes, que querem ficar bem na fotografia e encher bem os bolsos, sem para isso pensarem no mal que estão a fazer a tanta gente. E nós vamos comendo. E calando.

Até quando vamos continuar a comer e a calar? Até quando vamos deixar que o país se degrade? Até quando vamos deixar de viver num sistema de cunhas e favores e de facilitismo? Portugal está a perder toda uma geração e, com ela, as gerações futuras. Porque o emigrante de agora não quer passar mal para juntar todos os cêntimos e voltar para onde não o quiseram. Até pode querer voltar, muitos de nós queremos, mas temos as nossas exigências e sabemos que Portugal não tem nada para nos oferecer. Até quando é que vai ser assim?

15 comentários:

  1. É muito triste ver o estado do nosso país. É o deixa andar...

    http://thesunnysideoflifeblog.blogspot.pt/

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    1. Já não há muito mais por onde "deixar andar"...

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  2. Subscrevo tudo o que escreveste. Ainda cá estou mas vejo a situação insustentável. Não há trabalho e o que há é precário. E ninguém sonha com ganhar apenas para o básico! Queremos desenvolver, atingir objectivos dentro das nossas carreiras, não ficar eternamente a recibos verdes e com o ordenado mínimo por mês. A penar em vez de trabalhar (construtivamente). Quanto aos emigrantes, percebo que não queiram voltar. Se o meu país me obrigar a sair, eu não volto, pela simples razão de que eu queria mesmo ficar e não houveram condições. E isso revolta qualquer um.

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    1. Eu vivo em constante revolta, mas às vezes acho que sou a única =\ somos muito bons a falar, mas depois ninguém se tenta impor ou tomar uma atitude... somos muito "fáceis" como povo...

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  3. Esta dito! Eu tenho o meu pai lá fora e quase de certeza é uma opção para mim

    with love, KATE ❤

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    1. Infelizmente é a única opção de muita gente...

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  4. Até quando não sei, mas a continuar assim e os jovens todos a debandar, ainda nos fecham as fronteiras. Beijinho

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  5. Não vejo perpectivas de melhorias, infelizmente!

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  6. É uma realidade muito triste e preocupante. Como bem dizes, tínhamos tudo para ser um país mais evoluído, com uma boa qualidade de vida. Tudo menos uma boa gestão do mesmo.

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  7. Gostei das tuas palavras. Sabes o que é pior é ver os portugueses acomodarem-se à mer** que lhes dão. Isso revolta-me. Vão para os cafés queixarem-se mas também não fazem nada para reverter. Portugal não tem futuro para os jovens e eles cada vez irão emigrar mais e mais e depois? Que será feito de Portugal? Acho que os governantes não tem a mínima noção do que está a acontecer e dos estragos a longo prazo. É que antigamente eles emigravam para fazer a casa na terra e depois voltar. Hoje em dia (e por mim falo) estamos a emigrar para provavelmente não voltar... É um tema que me choca e revolta muito. Portugal está a tornar-se uma vergonha de país em todos os aspectos.

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  8. É uma boa pergunta... é triste ter de sair do próprio país, das nossas pessoas para ter um trabalho decente. Não é nada fácil, não.

    r: eu claramente também já fui bastante caótica xD

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  9. Não vejo perspectivas de melhorias, mas é assustador :( pensar que o meu filho pode passar pelo mesmo. Não é o que quero para ele.

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  10. Tens tanta razão! Vejo muita a gente a dizer que é melhor o salário mínimo que nada, e a acusar quem não aceita essas condições de não querer trabalhar. É mesmo difícil conseguir um nível de vida aceitável em Portugal, principalmente para as novas gerações. Só não acho que seja um problema que cada vez mais pessoas tenham um grau académico - isso é só bom, até porque o papel da universidade na formação vai muito além do preparar para o trabalho. Já o disse pelo menos uma vez, mas louvo-te a coragem de teres conseguido procurar o teu futuro noutro sítio. Não tenho qualquer apego a Portugal, mas tenho muito medo do desconhecido.

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