Normalmente, quando faço esta rubrica, tento falar-vos de 3 livros. No entanto, hoje, trago-vos apenas um, mas que vale por muitos: "Os bebés de Auschwitz".
Gosto de História e o período da Segunda Guerra Mundial é uma época que me "fascina" particularmente, sobretudo, a parte social da coisa. Porque Hitler não teria sido Hitler e não teria feito o que fez, se não tivesse sido apoiado (e muito apoiado). Gostava de entender o porquê, o que é que levou aquelas pessoas, naquela altura, a fazerem aquelas coisas. E na minha eterna busca do "porquê", livros sobre este tema (verídicos, de preferência) são uma grande tentação para mim.
Já estou há algum tempo para fazer a review deste livro, mas faltavam-me as palavras certas. Ainda não as encontrei, mas decidi fazê-la na mesma.
Este livro é uma biografia pura e dura: não há suspense, não há romances arrebatadores, não há Quidditch, nem ficção científica. Ainda por cima, é uma biografia que se começa a ler, sabendo-se já o fim da história. A edição que li (a primeira) é uma autêntica calamidade no que a erros diz respeito (confesso que chegava a um ponto em que se tornava deveras irritante) e a editora que a publicou tem mais é que ter vergonha porque nos meus 27 anos de vida, 22 dos quais enquanto leitora assídua, NUNCA li um livro com tantos erros. Mas, apesar disso, a história, o livro em si, vale mesmo muito a pena.
O livro fala de 3 mulheres judias, oriundas de países diferentes, que sempre viveram vidas pacatas e felizes com as suas famílias, até terem sido apanhadas pela guerra e pela máquina da morte da Alemanha nazi. As 3 foram enviadas grávidas para os campos de concentração (tendo passado por vários dos piores, nomeadamente, Auschwitz e Mauthausen) e sobreviveram a tudo: fome, sede, doença, comboios da morte, marchas da morte e aos campos. Página atrás de página, dava por mim a pensar que por muitos documentários que tenha visto, por muito que tenha lido, nunca tinha lido nada tão gráfico como li neste livro. Palavras simples, sem floreados, nem grandes figuras de estilo e, mesmo assim, temos todo um horror que nos é transmitido e que nos deixa com pele de galinha. Por várias vezes, tive de fechar o livro para não chorar. Perguntei muitas vezes a mim mesma "como é que foi possível?". Continuo sem saber como, só sei que foi possível. Imaginam-se a ter tanta sede que tentam comer flocos de neve? Ou tanta fome que se resignem a comer cascas de árvores (sob o risco de espancamento, se fossem apanhados, claro)? Imaginam ver os vossos avós automaticamente enviados para morrer porque já não podem trabalhar?
Fiquei a saber de coisas que não sabia. Por exemplo, sempre achei que nos campos, os prisioneiros tinham aquela espécie de pijama às riscas que se vê nos filmes. Pois fiquei a saber que em Auschwitz, depois de passarem por todo um processo de "selecção" extremamente humilhante, davam-lhes roupa ao acaso, que tinha sido confiscada a outros judeus, e era só aquilo que iam ter, dia e noite, para trabalharem horas infindáveis e sobreviverem a invernos impossíveis, ano após ano. Havia pessoas que recebiam vestidos de cocktail e sapatos de saltos altos. Havia quem não recebesse calçado nenhum (o que, para andar na neve, deve dar imenso jeito), havia quem recebesse roupa que não lhes servia, enfim, o que calhava.
Também nunca achei que a morte nas câmaras de gás envolvesse o grau de sofrimento físico que envolvia. Descrições sobre gritos e murros às portas, bocas a espumar e sangue a escorrer dos ouvidos deram-me pesadelos durante uns tempos.
Outra coisa que achei interessante foi a descrição da atitude das pessoas nos locais por onde elas passavam. Se em países como a República Checa, os habitantes locais punham a sua própria vida em risco para tentarem ajudar os prisioneiros de todas as maneiras que conseguiam, em lugares como a Áustria cuspiam-lhes em cima ou viravam a cara e não era nada com eles.
Mas, as três protagonistas grávidas conseguem sobreviver a tudo isto e a muito mais, conseguem ter os seus bebés, contra todas as expectativas, e os três bebés de Auschwitz acabam por viver vidas longas e felizes, sendo que se reencontram todos, já adultos. É bom saber que, apesar de todo o mal, há sempre coisas boas que ninguém, por mais que tente, consegue destruir. Acho muito importante que histórias como estas continuem a ser partilhadas, para ver se aprendemos alguma coisa com os erros do passado e para que esses erros fiquem onde pertencem: no passado.






