Volta e meia recebo aqui no blogue perguntas sobre a minha experiência de emigrante, pelo que hoje decidi sentar-me um bocadinho e deixar aqui alguns conselhos que acho úteis.
Atenção, porque o que eu vou dizer aqui não são verdades absolutas. São coisas que aprendi com a minha experiência, com todas as situações com que me fui deparando e são coisas que para mim são válidas, mas para outra pessoa, que tenha tido uma experiência completamente diferente, podem não o ser.
Em primeiro lugar, é preciso ter a certeza de que é isso que se quer. A vida longe de casa, da família e dos amigos, num país diferente, com pessoas e hábitos diferentes não é pêra doce, ao contrário do que muita gente pensa. Vão haver muitos momentos em que as saudades vão ser enormes, em que vão estar doentes e não vai estar lá ninguém para vos ajudar, em que as pessoas vão olhar para vocês de lado... Momentos em que, simplesmente, tudo corre mal. E, nesses momentos, até os mais decididos vão ter vontade de fazer as malas e voltar. Eu sei que já senti isso algumas vezes. Portanto, aquilo que eu acho é que, se não têm a certeza de que é o que querem, pensem bem, porque depois podem não aguentar. Claro que há sempre a opção de voltarem, ninguém vos vai amarrar com uma corda (à partida. Se o fizerem, chamem a polícia), mas emigrar é todo um processo burocrático complicado (pelo menos, o meu foi) e caro, por isso, é pena passarem por todo o trabalho para nada.
Outra coisa que acho muito importante é emigrar sim, mas com emprego garantido. Especialmente, numa época em que se começam a levantar pela Europa ondas de racismo e de xenofobia, não se metam a ir para lado nenhum se não têm trabalho, porque as dificuldades, que já são muitas, vão passar a ser imensas. E, por falar em dificuldades, quando decidirem sair do país, convém virem com algum dinheiro de lado para os primeiros tempos. A vida, em geral, é mais cara que em Portugal e não se recebe um salário logo no dia em que se chega. Eu tive muita sorte porque vim trabalhar para uma empresa que me disponibilizou um apartamento mobilado e equipado, onde passei os primeiros meses sem ter despesa nenhuma além da minha alimentação mas, se tivesse sido obrigada a alugar logo casa, teria sido muito mais complicado.
Por último, e sinto que já disse isto inúmeras vezes, mas nunca é demais repetir: Portugal não é um país perfeito. Não, sem sombra de dúvida que não e que, aliás, está muito longe disso, mas quando saímos, vimos sempre muito revoltados com o nosso país e, chegados cá fora, mais cedo ou mais tarde, percebemos que também não é assim tão mau. Quase toda a gente que conheço e que emigrou acaba por chegar à conclusão de que nos queixamos muito e que, afinal, há coisas que noutros países são ainda piores. E isto para não falar do clima, das paisagens, enfim, do país em si. Aquilo que, realmente, sentimos que melhorou bastante são as condições de trabalho, a remuneração e, consequentemente, as condições de vida. Isso e o facto de passarmos a ser respeitados no local de trabalho. Em Portugal havia dias em que me sentia completamente rebaixada, como se o único propósito da minha existência fosse estar 24 horas sobre 24 horas à disposição de patrões gananciosos e desumanos, vi muita gente a passar por experiências que nunca pensei que fossem possíveis de tão horríveis que foram, e tudo isto ao mesmo tempo que vivemos na corda bamba, sempre na expectativa de, de um momento para o outro, perdermos o emprego e de ficarmos sem nada. Uma das minhas maiores relutâncias em voltar para Portugal, é voltar a ter um patrão português. Fiquei muito mal impressionada e o pior é que todo o sistema está criado de maneira a que seja esse tipo de gente a sair sempre impune e isso repugna-me para lá do explicável.
Bem, espero ter ajudado de alguma forma a tirar alguma dúvida que pudessem ter. Sintam-se à vontade para, a qualquer momento, me enviarem um mail a perguntar o que quiserem para cronicasdesaltosaltos@gmail.com , estou sempre à disposição (=
Bom fim-de-semana!!!
