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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Essa coisa de trabalhar demais

No outro dia li esta notícia e, não podendo dizer que fiquei surpreendida, admito que fiquei desiludida.

Já vai para mais de dois anos que deixei Portugal. As notícias vão chegando de que as coisas estão a melhorar, de que o país já saiu do vermelho, e uma pessoa sabe que não é verdade e que ainda há um longo caminho a percorrer. Nomeadamente, nesta coisa que aborrece muita gente e que se chama "direitos dos trabalhadores". Porque, em Portugal, ainda há muito a mentalidade do "tens a sorte de ter um emprego, por isso cala-te e trabalha". E é o que as pessoas fazem: calam-se e trabalham. Baixam a cabeça e continuam a ser exploradas. 

Quantas horas extraordinárias se fazem todos os dias que ficam por pagar? Quantos dias de folga e de férias se perdem todos os anos? Quantas pessoas nem se atrevem a meter baixa, porque os contratos (quando existem) não oferecem segurança nenhuma? 

E ai de quem se queixar. Porque as respostas são, invariavelmente, coisas como "se não tens tempo para comer, come menos" (true story). 

Eu sei que há quem não tenha outra hipótese a não ser "aguentar". Porque há empréstimos para pagar e filhos para criar. Mas, aos que tiverem a sorte de poder dizer que não, digam que não. Não aceitem ser humilhados nem escravizados. Não aceitem trabalhar por menos daquilo que merecem. Eu também aceitei, durante algum tempo. Mas, cansei-me e vim-me embora. E foi o melhor que fiz. Não quero com isto dizer que emigrar seja a solução para toda a gente, porque cada caso é um caso. Mas a vida tem-me ensinado que saber dizer não é extremamente importante.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

The final countdown

Não sou particularmente fã de férias em Agosto mas, uma vez que não tenho escolha, vou tirar as minhas férias em Agosto, mais uma vez. E sinceramente? Até podia ser Dezembro, só quero é ir para casa. Estou cansada, sinto que estou a gastar os meus últimos cartuchos de energia (se é que já não os gastei) e mal posso esperar por aterrar em Portugal. A boa notícia é que isso vai acontecer já no sábado. Está quase!

E, à semelhança do ano passado, deixo-vos aqui o hino do mês de Agosto de qualquer emigrante que se preze! Aproveitem o tesourinho (=



quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ninguém merece

Como se já não fosse suficientemente deprimente voltar para França, saí do Porto com um sol maravilhoso e temperatura de ir à praia, e fui recebida em França por um céu cinzento, chuva e inundações.

Posto isto, já estou em casa (depois de uma viagem muito atribulada) e vou tomar uma caneca de chá, para ver se relaxo o suficiente antes de ir dormir. Normalmente, a noite do regresso é uma noite de insónias. Vamos lá ver se hoje é diferente!


domingo, 29 de maio de 2016

Perguntas de salto e respostas de alto #6

Já há muito tempo que esta rubrica andava desaparecida... Desaparecida, mas não esquecida! E, decidi, que era hora de a trazer de volta.

Para quem não sabe, esta rubrica consiste numa pequena entrevista a um emigrante português, para nos ficarmos a conhecer melhor, para partilhamos ideias e experiências e, quem sabe, até inspirar alguém.

Hoje trago-vos a entrevista da Rita. A Rita é enfermeira e, como tantos outros, viu-se obrigada a fazer as malas e a deixar o nosso cantinho à beira-mar plantado. Instalou-se em Londres, onde trabalha no University College of London Hospital, como enfermeira de Neonatologia.

Passemos, então, às perguntas (e às respostas).

1 - Há quanto tempo saíste de Portugal?

Saí de Portugal em Julho de 2012, portanto, há quase 4 anos.

2- O que te levou a tomar a decisão de sair?

Emprego precário (part-time, a recibos verdes, numa clínica) e falta de oportunidade para trabalhar onde realmente queria, em contexto hospitalar.

3 - A saber o que sabes hoje, voltavas a tomar a mesma decisão?

Sem dúvida. Foi muito complicado, na altura, mas não me arrependo de nada. Cresci e aprendi muito nestes últimos anos. Acho que me superei a mim mesma e ganhei a minha independência.

4 - Descreve a tua experiência em Inglaterra em 5 palavras:

Desafiante, enriquecedora,  multi-cultural, aventureira, non-stop.

5 - 3 coisas (coisas, não pessoas) que trarias de Portugal, se pudesses:

Posso considerar a praia uma coisa? Se sim, claro que traria a praia. É das "coisas" que mais me faz falta. Adoro ver o mar, nem que seja no Inverno!

A comida, apesar de conseguir trazer alguma e de cozinhar pratos portugueses.

O clima... sem dúvida que temos muita sorte no clima que temos! É muito triste ter que usar casacos durante quase o ano todo! (I hear you, sista...)

6 - Em que é que sentes que a tua vida mudou, para melhor e para pior, com a mudança?

Sem dúvida, a minha vida profissional mudou muito e para melhor. Trabalho na área em que sempre quis, subi um escalão na minha carreira com continuação de progressão, tenho o respeito e reconhecimento dos meus colegas, tenho uma equipa fantástica que continua a apoiar-me muito, continuo a fazer cursos e formações pagos pelo hospital onde trabalho, recebo um salário que, nunca na vida, iria receber em Portugal, como enfermeira. Para além da vida profissional, penso que o facto de viver noutro país me fez evoluir muito enquanto pessoa, convivendo com outras culturas (uma vez que Londres tem uma diversidade cultural imensa), sabendo desenrascar-me, de modo a criar a minha independência.

No lado negativo, há o facto de perder imensas coisas que acontecem em Portugal e nas quais não posso estar (sempre) presente, o estar longe da minha família e de parte dos meus amigos (tenho muitos amigos espalhados pelo mundo... cada vez são menos em Portugal!). Mas, acho que já aceito isso de forma natural. Já me custou muito mais, confesso.

7 - Um conselho que darias a ti própria, se pudesses voltar atrás no tempo:

Talvez, ter mais calma em determinadas situações. Sou muito impulsiva, por vezes, e vivo as coisas tão intensamente que me enervo muito facilmente. Talvez se tivesse tido mais calma em determinadas situações, isso tivesse ajudado a ultrapassá-las com maior facilidade.

8 - Um conselho para a nossa geração (e para as futuras) dentro e fora de Portugal:

Não se acomodem. Se têm sonhos, vão à luta, por muito que custe deixar a zona de conforto. Ganha-se muito mais, não só profissional, como pessoalmente. Enriquece-nos como pessoas e dá-nos mais confiança em nós próprios. Como dizia o Bruno Nogueira: "O Mundo não é isto, o Mundo é bué de cenas!".

9 - O que achas essencial mudar em Portugal?

Mentalidades e políticas.

Os governos mudam, mas não há mudanças que levem o nosso país a andar para a frente. Os nossos jovens continuam a sair do país, à procura de melhores oportunidades de emprego. Continua a ser muito preocupante, por exemplo, na minha área, a quantidade de enfermeiros que sai do país todos os anos. Há que criar condições de trabalho e melhores salários. Os enfermeiros são a base do Serviço Nacional de Saúde... sem eles, não funciona. Eu sei que não é fácil, mas já andamos assim há muitos anos e, pelos vistos, não há melhorias.

Depois, há gente com tanto potencial, mas não há apoios.

E assim vamos andando, infelizmente. Cada vez que volto a Portugal, a história parece a mesma de sempre, "tudo na mesma". E custa muito ver isso, porque é o nosso país e o lugar onde, um dia, gostaria de voltar a viver.

10 - Onde te vês daqui a 5 anos? E daqui a 10?

Esta é uma pergunta muito complicada!
Estou numa fase da minha vida de alguma incerteza. Adoro aquilo que faço, mas não me vejo a ser enfermeira para o resto da minha vida (é uma profissão muito desgastante, física e psicologicamente). No entanto, não sei que profissão escolher, além de enfermagem.

Neste momento, estou envolvida num projecto que se chama "Global Newborn Network", que está mesmo muito no início, e que está a ser desenvolvido por enfermeiros e médicos da minha unidade. É um projecto muito desafiante e ambicioso que tem como objectivo primordial a redução da taxa de mortalidade neonatal em países em desenvolvimento (isto, claro, a longo prazo). O intuito será avaliar as condições de unidades neonatais nesses países e quais as práticas, de forma a podermos dar formação para melhorar os cuidados prestados, com as condições envolventes. Inicialmente, pretendemos fazer isto no Uganda, onde já temos contactos, sendo que no futuro queremos abranger mais países. É de facto um projecto bastante ambicioso e a longo prazo mas que pode vir a dar bastantes frutos. Espero dar mais novidades brevemente. (Vá, vamos todos dizer em uníssono: UAU. Também espero que nos dês novidades brevemente!)

Daqui a 5 anos, estarei, provavelmente, em Londres. A fazer o quê? Não sei.

Daqui a 10 anos, ainda pior, não sei mesmo!

Se me perguntasses, há 5 anos atrás, se me veria onde estou hoje, eu nunca me teria imaginado assim.

Podemos repetir a entrevista daqui a 5 anos para ver o que mudou! (Combinado!)


A Rita, com a Tower Bridge em pano de fundo. 

sábado, 28 de maio de 2016

A caminho de casa, mais uma vez

O mês de Maio foi um mês extremamente viajado. Comecei com uma semana em Roma, fui a Portugal a meio de mês e, agora, volto a Portugal para mais uns dias.

Sinto-me mesmo muito grata por ter um emprego e um horário que me permite ir a casa tantas vezes. Hoje em dia, o longe faz-se perto sem grandes complicações e consigo passar mais tempo no Porto, com a minha família, desde que me mudei para França, do que quando morava em Viseu. Porquê? Porque em Viseu não tinha dias de descanso, trabalhava horas infindáveis e o dinheiro para fazer as viagens também não era muito abundante. 

Por outro lado, se não conseguisse ir a Portugal tantas vezes, desde que me mudei para Troyes, já teria, certamente, enlouquecido. Aqui, aprendi o verdadeiro sentido da palavra "solidão". Tudo é diferente, tudo é estranho e a adaptação não tem sido nada fácil. Mas cá se vai vivendo, uns dias melhor e outros pior. Já passaram dois anos, não sei quantos mais virão, mas venham eles.

Entretanto, vou pôr-me a andar para o aeroporto, que tenho um avião à minha espera. Espero aproveitar bem estes dias, porque depois só volto em Agosto.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

2 anos

Não sei em que dia exacto cheguei a França, mas sei em que dia começou o meu contrato de trabalho: 2 de Maio de 2014, ou seja, há 2 anos atrás.

2 anos.

Muito se passou nestes 2 dois anos: muitos jantares, muitas horas em aeroportos, muitas gargalhadas, muitas histórias caricatas para contar, muitas lágrimas, muitas saudades. É uma sensação engraçada, parece que estes anos passaram a voar (2 anos? Já?) e, ao mesmo tempo, tenho a impressão de que já estou aqui há uma vida inteira. Os dias de ser explorada em Portugal ficaram para trás, bem longe, não existem mais a não ser em memórias remotas, bem guardadas nos recônditos mais profundos da minha memória.

Ultimamente, tenho falado em voltar a mudar. Vai acontecer, eventualmente. Mas vai-me custar. Nunca pensei vir a dizer isto, mas vou ter saudades de Troyes. Vou ter saudades do meu apartamento minúsculo e das pessoas que trabalham comigo. Aqui cresci muito, pessoal e profissionalmente. Aprendi aquilo a que tenho direito e muito dificilmente me voltam a apanhar a aceitar trabalhar em condições da treta. Aprendi, também, que Portugal não é o pior país do mundo. Aprendi que os portugueses não são os piores do mundo. Nem de longe, nem de perto. 

Quando cheguei a França, vinha cheia de dúvidas. Emigrar nunca tinha feito parte dos meus planos de vida. Sempre achei que ia conseguir "desenrascar-me" em Portugal. E consegui. Mas, rapidamente, dei por mim a chegar ao meu limite e a perceber que "desenrasque" é dificilmente compatível com "viver". Não foi difícil chegar à conclusão de que as coisas não haviam nunca de melhorar, que ia ser sempre aquilo, aquelas condições, por muitos e muitos anos. Portanto, acabei por desistir e emigrei. Nunca pensei que fosse aguentar 2 anos. 1 ano parecia-me uma boa meta e cheguei, mesmo assim, a pensa que não ia conseguir. Mas consegui, um dia de cada vez. E, com jeitinho, ainda chego aos 3. 



terça-feira, 26 de abril de 2016

Rain, rain, go away...

... come again another day. De preferência, um dia em Outubro, daqui a 6 meses, e deixa-nos aproveitar a primavera, por favor. 

A primavera chegou há um mês e houve ali uma altura em que eu ate já estava a ficar animada e mais bem disposta e com vontade de ir às compras e de pensar nas minhas férias. Pois que este fim-de-semana voltou a chover, arrefeceu imenso e eu, que já me estava a preparar para lavar e guardar o meu edredão de inverno, voltei a deparar-me com noites em que os termómetros chegam aos 0ºC e, não só tive que deixar o edredão no sítio, como tive que ir buscar os pijamas de inverno. Toda uma tristeza!

E eu não preciso de tristezas nesta fase da minha vida, que já anda triste por si só. A Isabel (uma das minhas melhores amigas, que vivia em Troyes e é a razão pela qual eu vim para cá trabalhar) foi embora no início do ano e está a começar a ser difícil estar aqui. Nos fins-de-semana acabo sempre por ir a casa de alguém ou ter alguém a vir a minha casa, mas o problema tem sido o dia-a-dia. Acordar, ir trabalhar, sair do trabalho e voltar para casa. Para o silêncio das minhas quatro paredes. Todos os dias. Ando numa fase de desmotivação profunda e isso tem-se notado no blog, peço desde já desculpa. Só me apetece fazer as malas e ir embora. Mas ir embora para onde? Portugal continua a estar um bocado fora de questão, o desemprego não me apela minimamente e ser explorada apela-me ainda menos. E depois há outra questão, já há quase 2 anos que estou aqui, já me habituei ao meu trabalho e às minhas colegas, sobretudo à minha assistente, e não me apetece deixar estas pessoas todas para trás. Mas, depois dou por mim a passar o dia inteiro em pijama e odeio esta sensação de nada para fazer, literalmente, nada. E sei que tenho que mudar. Não sei para onde, não sei quando, não sei como. Mas dei a mim mesma até ao fim do ano para me decidir. 

Se dependesse só de mim, pegava já nas coisas e ia para uma ilha tropical trabalhar em frente à praia (Martinica, me aguarda). Mas não depende só de mim, tenho um namorado em Portugal, que não está nada decidido a sair de lá. Decisões, decisões. Ser adulto é espectacular, toda a fase da minha vida em que os meus pais tinham o direito de decidir por mim foi horrível. Bem, não toda, fui uma criança muito feliz, mas lá pelos 11 anos, com o divórcio e todo o circo que veio atrelado, foi horrível. E agora não é horrível, agora é perfeito. Mas é difícil na mesma. 

Bem, sol, espero que apareças em breve, porque tenho a certeza que me vou sentir muito melhor!

terça-feira, 5 de abril de 2016

Mais um "até já"

Estou de volta a Troyes, para mais uma temporada. 

As viagens de ida e volta a Portugal são cansativas, sobretudo, quando são estadias de poucos dias (como são quase sempre). São cansativas física e emocionalmente. Mas são o que me dá mais força para me aguentar aqui. Voltar para França já com o bilhete de ida para passado um ou dois meses dá-me todo um outro ânimo e a vida por cá fica mais fácil.

Desta vez, vir embora foi mais triste. Em Portugal, foi um fim-de-semana de festa, com a minha mãe e a minha avó a fazerem anos. Além delas, este mês ainda fazem anos uma das minhas irmãs, uma prima (a designer que renovou o blog), o meu pai e um avô. Sim, a minha família tem uma grande panca pelo mês de Abril, mas adiante. 

Este fim-de-semana soube-me a pouco. A muito, muito pouco. Hoje, custou-me mais do que o costume ver as pessoas a despedirem-se no aeroporto (acontecimento ao qual uma pessoa acaba por se habituar) e fui acometida pela dúvida. 99% do tempo, sinto que tomei a decisão acertada por sair de Portugal. Mas, no 1% que resta... lá vem o "E se?". Imagino que mais gente tenha estes momentos, em relação a várias coisas da vida. E, digam lá, não é do piorio? 

Continuo a ver Portugal como um buraco sem fundo. Toda a gente diz que não pode ficar pior - mas pode sempre ficar pior. Sobretudo, quando uma grande parte da camada jovem, formada ou não, continua a escolher emigrar. Quando os que ficam se resignam, não batem o pé. Baixam a cabeça e vivem o dia-a-dia com as migalhas que lhes são atiradas. Quando tanta coisa está mal e não se vê ninguém com capacidade para resolver os problemas, que são imensos. Até quando? 

Enfim, hoje tive a certeza (já tinha, mas foi renovada) de que gostava de voltar. Só não vejo maneira de isso poder acontecer.

sábado, 2 de abril de 2016

Mais uma moedinha...

... mais uma voltinha.

Funcionassem os aviões da Ryanair a moedas e eu seria uma moça muito feliz. Infelizmente, ainda não aceitam moedinhas - têm preferência por cartões de crédito. Mas, é uma despesa que vale a pena, porque é uma despesa que significa ir a casa. E eu adoro ir a casa. 

Ah, e caso ainda estejam com dúvidas, hoje tenho um avião para apanhar. Próxima paragem: Porto.

Até já!

quarta-feira, 9 de março de 2016

Um país ao contrário

Voltei hoje de Portugal. Foi mais uma visita relâmpago, mas não me posso queixar. Sei muito bem que não são todos os emigrantes (e tantos que nós somos!) que têm a sorte de poder ir a casa todos os meses, como eu. É bom ir regularmente a casa, ver os meus sítios e as minhas pessoas, comer a minha comida, dar passeios. São dias que me fazem sentir que nada mudou (quando, na realidade, a minha vida está completamente diferente).

Passaram quase dois anos desde que comecei esta aventura por Troyes e é com alegria que posso dizer que o resultado está a ser positivo. Estou num ponto da minha vida profissional que nunca atingiria em Portugal, pelo menos, não nos próximos 20 anos. E isso é uma conclusão que não me dá alegria nenhuma.

É extraordinária e assustadora a quantidade de emigrantes portugueses que vejo nos aeroportos por onde passo. A quantidade de gente que teve que deixar Portugal em troca duma vida digna. É triste. É triste ver um país que tem tudo para dar certo, mas que continua a insistir em seguir maus caminhos. Um país onde nos falam de melhorias, mas onde tudo continua igual. Onde não há soluções para a precariedade. Onde as pessoas continuam a trabalhar muito mais do que as 40 horas semanais que deviam em troca de 500€ e acham isso normal! Onde anda tudo desesperado à procura duma merda dum estágio profissional, onde os recibos verdes e os contratos a termo são o prato do dia! Isso e o desemprego, porque continuamos a formar profissionais indiscriminadamente, sem ter minimamente em conta as necessidades reais do país. E depois qual é a solução? Emigrar. Emigrar ou ir para o desemprego e contribuir ainda mais para os problemas dum país, que já está completamente esgotado e saturado. Falando do caso que conheço mais de perto, o da minha área, a Medicina Dentária, a coisa já chegou ao ponto em que uma pessoa sente que estão a gozar connosco. Já está mais que comprovado que Portugal tem dentistas a mais, até para emigrar estão a começar a ser demasiados! Mas temos uma (des)Ordem que continua a atirar areia para os olhos das pessoas, a fazer-nos passar por mal agradecidos, a dizer que as coisas não estão assim tão más e ano após ano, continuam a entrar centenas de alunos para as faculdades. Vejo na OMD o retrato do país: um bando de pavões arrogantes, que querem ficar bem na fotografia e encher bem os bolsos, sem para isso pensarem no mal que estão a fazer a tanta gente. E nós vamos comendo. E calando.

Até quando vamos continuar a comer e a calar? Até quando vamos deixar que o país se degrade? Até quando vamos deixar de viver num sistema de cunhas e favores e de facilitismo? Portugal está a perder toda uma geração e, com ela, as gerações futuras. Porque o emigrante de agora não quer passar mal para juntar todos os cêntimos e voltar para onde não o quiseram. Até pode querer voltar, muitos de nós queremos, mas temos as nossas exigências e sabemos que Portugal não tem nada para nos oferecer. Até quando é que vai ser assim?

terça-feira, 1 de março de 2016

La vie en France #14

Não me interpretem mal: eu adoro a minha vida em França e estou eternamente grata a esta país por me ter recebido e me ter dado condições de vida que o meu próprio país nunca me deu. No entanto, há uma coisa à qual eu não me consigo habituar. Uma pessoa quase que pensa que sim, que já não se incomoda mais com isso, mas não, afinal incomoda-se (e muito).

Sinto que já falei disto imensas vezes aqui, mas o caso é tão dramático, que tenho que o trazer à baila mais uma vez, isto é gira o disco e toca o mesmo: a falta de higiene e o consequente mau cheiro. Porquê, pessoas, porquê? Qual é a necessidade, a sério?

Eu até tentei compreender (não consegui, mas a sério que tentei) que, no pino do verão, esta gente fedesse mais que um par de meias sujas cozinhadas em molho de cebolada e alho. Continuo a achar que um bocado de água e sabão resolvia grande parte do problema e que um desodorizante seria um óptimo investimento para muita gente mas, ao menos tinham a desculpa de que estavam 40º C e uma pessoa passava o dia (e a noite) a destilar suor. Agora, alguém me explique, como é que se consegue cheirar a transpiração de 15 dias em pleno inverno? A sério, por favor, alguém que me elucide. É que eu nem consigo imaginar, com este meu cérebro inocente de pessoa limpa, o que é que será preciso fazer para se cheirar tão mal. E a roupa? Como é que a trazem sempre tão suja? Já cheguei a pensar se França não terá uma espécie de epidemia de casos graves de daltonismo, porque algumas nódoas são tão visíveis que das duas, três: ou não distinguem as cores, ou é alguma espécie de fashion statement (já imagino o título da próxima edição especial de moda da Vogue Paris: Dirty is the new black) ou então são só mesmo muito porcos. 

Ainda me lembro de pensar "é mesmo pena não haver um shoping nesta cidade, dava jeito para ir às compras quando está a chover ou frio". No outro dia, entrei nos correios e fez-se luz: não pode existir um shoping. Quanto menos espaços fechados existirem, melhor, porque são um atentado à saúde pública. O pior de tudo são os comboios, onde já chegámos a ver carraças (e já nem me vou dar ao trabalho de falar do metro em Paris, porque para esse acho que a única solução é incinerarem as carruagens e porem tudo novo).

Será que foi só em Portugal que crescemos ao som de frases inspiradoras como "Branco mais branco, não há" ou "O algodão não engana"? A verdade é que saímos de Portugal muito mal habituados. Tão mal habituados que passamos muitas vezes por uns "exagerados" no que diz respeito à higiene, o que não deixa de ser irónico: eles não são porcos, nós é que somos muito limpos. Yeah, right.



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

La Vie en France #13

Já esta semana tinha aqui escrito que estava doente. Pois que, na minha inocência, eu achava que era só uma constipação. A cada dia que saía da cama a sentir-me como se tivesse passado a noite a ser repetidamente atropelada por um camião, pensava "isto passa". Não passou. 

Não só não passou como foi ficando cada vez pior. Na quarta-feira dei por mim a pensar se ia ser capaz de aguentar trabalhar o dia todo. Aguentei. Aguentei, sobretudo, porque estou sempre a ouvir que os estrangeiros abusam e que querem é vir para cá para não fazer nada e não queria que dissessem isso de mim. Ontem é que, como se costuma dizer, foi o fim da picada. Saí da cama a rastejar, tudo me doía, tinha dormido extremamente mal, não suportava a luz nos olhos e mal me aguentava de pé. Não sei como é que aguentei a caminhada até ao trabalho, ainda por cima com temperaturas negativas. Soube que estava mesmo mal quando cheguei à clínica e, em vez de ouvir "Bonjour!", como todos os dias, ouvi "oh la la!". Estava mais branca que a minha bata, com os olhos vermelhos, o nariz a pingar, mal podia falar e sentia a cabeça a andar à roda... A minha sorte é que a minha médica trabalha na porta em frente ao meu gabinete e me atendeu assim que pôde. Ainda trabalhei de manhã, mas acabei por ter que dizer que realmente não aguentava mais e vim para casa de baixa, onde continuo, enfiada na cama, de onde só saio para três coisas: ir à casa-de-banho, comer ou tomar os medicamentos. 

França tem sido um verdadeiro desafio para mim, a nível de saúde. Eu, que sempre fui uma gaja saudável, desde que aqui cheguei parece que estou constantemente doente. Desta vez, é uma sinusite aguda. Que não precisava de ter chegado a este ponto se eu não tivesse sido teimosa e tivesse ido à médica logo na segunda-feira. Agora estou a antibióticos (que me estão a deixar muito mal do estômago). A cabeça continua a andar à roda mas, lentamente, começo a ter menos dores a respirar melhor. Agora é dar tempo ao tempo e continuar a ligar à minha mãe e à minha avó de cada vez que preciso de mimo. 

Fico revoltada comigo mesma por me ter deixado chegar a este ponto. Ainda por cima, trabalhando na área da saúde... I should have known better. Mas, também sei que foi, em grande parte, por não querer fazer papel de coitadinha, por não querer que pensassem que me estava a fazer de vítima ou a aproveitar-me das circunstâncias, como tantos outros estrangeiros fazem. E, apesar de me estar a sentir um autêntico farrapo, também sinto algum alívio por saber que toda a gente constatou, com os seus próprios olhos, o quão mal eu estava e que precisava mesmo de vir para casa curar-me. É triste, mas às vezes é assim a vida de emigrante. 

E por aí, como está a correr a vossa semana? Melhor que a minha, espero. 

(Reparei agora que esta edição da rubrica "La vie en France" é o número 13. Nem de propósito isto teria corrido tão bem).




domingo, 14 de fevereiro de 2016

O que é bom...

... acaba depressa. E assim foi com a minha semaninha de férias em Portugal. Foi boa e acabou depressa.

Nos primeiros dias andei a fazer uma terapia de sono. Consegui dormir 9/10 horas por noite e ainda fazia sesta a meio da tarde. Para quem não me conhece, o facto de eu dormir de tarde é caso para sair na capa do Correio da Manhã (até porque seria o único jornal a interessar-se numa coisa destas), porque eu não consigo dormir o suficiente nem durante a noite, quanto mais em pleno dia. Mas estava exausta e a precisar (e soube-me pela vida, minha gente). Fui passar uns dias à Figueira da Foz e o resto do tempo passei-o no Porto. Estive com a minha família, estive com alguns amigos e comi o suficiente para um mês inteiro. Tenho a impressão de que todas as pessoas com quem eu estive me tentaram enfiar comida pela goela abaixo (o que me incomodou imenso, como devem imaginar). Ah, importante referir que ainda tive tempo de ver o Porto a ganhar ao Benfica o que, mesmo sendo eu uma pessoa que não liga puto a futebol, me deixou contente.

Levei a minha máquina fotográfica comigo porque de cada vez que faço uma viagem partilho as fotos convosco e nunca partilhei aqui fotos do Porto nem do que faço quando lá estou. Mas o S. Pedro resolveu pregar-me uma partida e o tempo esteve uma bela merda porcaria toda a semana, com vendavais e chuva que não parava, pelo que a reportagem fotográfica vai ter que ficar para a próxima. Mas nada temam, meus amigos! A próxima é já daqui a 3 semanas. 

E pronto, cá estou eu em Troyes, de volta à minha miniatura de casa. Esta semana vai estar um frio glaciar (sempre a somar pontos, S. Pedro, estás cá dentro!) e eu tenho muito trabalho pela frente (e voltei doente). Mas vai passar rápido, vamos ter fé. 

E por aí, tiveram todos uma boa semana?




quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

La Vie en France #12

Ah, que saudades que tinha desta rubrica. Verdade seja que, ultimamente, tem andado adormecida porque, para meu espanto, não tem havido nenhum episódio caricato, digno de ser partilhado convosco. 

Até ontem.

Já nem se pode dizer que seja caricato porque, como eu costumo dizer, "em França, tudo o que pode correr mal, corre mal" e, assim sendo, caricato é quando algo nos sai bem à primeira. Uma coisa com a qual ainda não tinha tido problemas aqui são as encomendas online. Regra geral, com quanto menos pessoas tiverem que interagir para conseguirem fazer alguma coisa, melhor ela vai correr. Pois que, no passado fim-de-semana fiz uma encomenda no site da My Protein francês, onde já tinha feito encomendas antes, sem problemas, e paguei a entrega ao domicílio. Na terça-feira, recebi um e-mail da empresa transportadora a dizer "recebemos a sua encomenda, que lhe será entregue quarta-feira, 20/01/2016, entre as 8h e as 18h". Adorei o intervalo de horário que me deram, umas meras 10 horas, mas estava de folga, por isso, podia ficar em casa. Além disso, no próprio dia costumam enviar uma sms de manhã a dar um horário de passagem mais preciso.

Na quarta-feira, ontem, acordei cedo (vai que se lembravam de chegar mesmo às 8h da manhã e eu ia ter que descer as escadas de pijama e com as marcas da almofada na cara?), tomei o pequeno-almoço, pus a dar a série "Call the Midwife" e fiquei à espera... continuei à espera... e ainda esperei mais um bocadinho. 

"Bem, se calhar aproveitava e aspirava a casa". Aspirei. E continuei à espera. 

"Hmm, já estou a ficar com fome, vou fazer qualquer coisa para o almoço". E fiz. E almocei. E continuei à espera.

A tarde passou-se, vagarosamente, entre canecas de chá e episódios de "Call the Midwife", com pausas para xixi, que não há bexiga que aguente tanto chá, e nem sinais da minha encomenda. Às 17h30 pensei "filhos da mãe, vão fazer-me esperar mesmo até à última". Só que a "última" chegou e a minha encomenda não. Tentei manter a calma, tanto quanto possível, depois do dia perdido que tinha sido e liguei para a transportadora. 20 minutos com a chamada em espera, para ser atendida por uma imberbe que, depois de eu explicar o meu problema e após ter ido averiguar o que se tinha passado, me diz, descontraidamente:

"Ah sim, a sua encomenda continua aqui connosco. Não faço ideia do que se terá passado. Mas pode passar aqui para a vir buscar, se quiser."

Hmmm... Não, não quero. Para ir aí buscá-la, não tinha feito o pagamento da entrega ao domicílio. 

"Ah, bem, então vamos ter que reprogramar a entrega. Era só para evitar fazê-la perder mais um dia em casa."

Ao que eu respondi que se me faziam "perder mais um dia em casa" se iam arrepender amargamente e ela sugeriu, então, deixarem-me a encomenda no posto de correios mais próximo de minha casa, só "por via das dúvidas" e eu ia levantá-la quando quisesse. Por esta altura, já eu estava a deitar fumo pelas orelhas. Não é o facto de a entrega não ter sido feita, toda a gente erra e podia ter acontecido em qualquer lado. Mas só aqui é que se encontram estas personagens, perfeitamente à vontade com a sua própria incompetência, como se serem maus no seu trabalho fosse um direito que lhes assistisse e gozar com a cara das pessoas uma das suas funções.

Já dizia a minha avó: Deus me dê paciência e um paninho para a embrulhar. 




sábado, 16 de janeiro de 2016

Para quem está a ponderar emigrar...

Volta e meia recebo aqui no blogue perguntas sobre a minha experiência de emigrante, pelo que hoje decidi sentar-me um bocadinho e deixar aqui alguns conselhos que acho úteis.

Atenção, porque o que eu vou dizer aqui não são verdades absolutas. São coisas que aprendi com a minha experiência, com todas as situações com que me fui deparando e são coisas que para mim são válidas, mas para outra pessoa, que tenha tido uma experiência completamente diferente, podem não o ser. 

Em primeiro lugar, é preciso ter a certeza de que é isso que se quer. A vida longe de casa, da família e dos amigos, num país diferente, com pessoas e hábitos diferentes não é pêra doce, ao contrário do que muita gente pensa. Vão haver muitos momentos em que as saudades vão ser enormes, em que vão estar doentes e não vai estar lá ninguém para vos ajudar, em que as pessoas vão olhar para vocês de lado... Momentos em que, simplesmente, tudo corre mal. E, nesses momentos, até os mais decididos vão ter vontade de fazer as malas e voltar. Eu sei que já senti isso algumas vezes. Portanto, aquilo que eu acho é que, se não têm a certeza de que é o que querem, pensem bem, porque depois podem não aguentar. Claro que há sempre a opção de voltarem, ninguém vos vai amarrar com uma corda (à partida. Se o fizerem, chamem a polícia), mas emigrar é todo um processo burocrático complicado (pelo menos, o meu foi) e caro, por isso, é pena passarem por todo o trabalho para nada.

Outra coisa que acho muito importante é emigrar sim, mas com emprego garantido. Especialmente, numa época em que se começam a levantar pela Europa ondas de racismo e de xenofobia, não se metam a ir para lado nenhum se não têm trabalho, porque as dificuldades, que já são muitas, vão passar a ser imensas. E, por falar em dificuldades, quando decidirem sair do país, convém virem com algum dinheiro de lado para os primeiros tempos. A vida, em geral, é mais cara que em Portugal e não se recebe um salário logo no dia em que se chega. Eu tive muita sorte porque vim trabalhar para uma empresa que me disponibilizou um apartamento mobilado e equipado, onde passei os primeiros meses sem ter despesa nenhuma além da minha alimentação mas, se tivesse sido obrigada a alugar logo casa, teria sido muito mais complicado.

Por último, e sinto que já disse isto inúmeras vezes, mas nunca é demais repetir: Portugal não é um país perfeito. Não, sem sombra de dúvida que não e que, aliás, está muito longe disso, mas quando saímos, vimos sempre muito revoltados com o nosso país e, chegados cá fora, mais cedo ou mais tarde, percebemos que também não é assim tão mau. Quase toda a gente que conheço e que emigrou acaba por chegar à conclusão de que nos queixamos muito e que, afinal, há coisas que noutros países são ainda piores. E isto para não falar do clima, das paisagens, enfim, do país em si. Aquilo que, realmente, sentimos que melhorou bastante são as condições de trabalho, a remuneração e, consequentemente, as condições de vida. Isso e o facto de passarmos a ser respeitados no local de trabalho. Em Portugal havia dias em que me sentia completamente rebaixada, como se o único propósito da minha existência fosse estar 24 horas sobre 24 horas à disposição de patrões gananciosos e desumanos, vi muita gente a passar por experiências que nunca pensei que fossem possíveis de tão horríveis que foram, e tudo isto ao mesmo tempo que vivemos na corda bamba, sempre na expectativa de, de um momento para o outro, perdermos o emprego e de ficarmos sem nada. Uma das minhas maiores relutâncias em voltar para Portugal, é voltar a ter um patrão português. Fiquei muito mal impressionada e o pior é que todo o sistema está criado de maneira a que seja esse tipo de gente a sair sempre impune e isso repugna-me para lá do explicável. 

Bem, espero ter ajudado de alguma forma a tirar alguma dúvida que pudessem ter. Sintam-se à vontade para, a qualquer momento, me enviarem um mail a perguntar o que quiserem para cronicasdesaltosaltos@gmail.com , estou sempre à disposição (=

Bom fim-de-semana!!!





sábado, 9 de janeiro de 2016

"Quando voltar é um erro"

O título está entre aspas porque é uma frase que li algures (mas não me lembro onde) e que fez todo o sentido para mim. 

Quase 2 anos depois de ter emigrado, começo a ouvir muitas vezes coisas como "e porque é que não voltas?", "de certeza que arranjavas qualquer coisa aqui" e, a minha preferida, "o dinheiro não é tudo".

Não, o dinheiro não é tudo. Precisamente por não ser tudo, se eu fizer uma lista de todas as razões pelas quais emigrei, "dinheiro" vai aparecer em último. Felizmente, o que ganhava em Portugal já dava para ser independente e fazer a minha vida, ao contrário do que poderão dizer muitos dos meus colegas, mas precisamente por dinheiro não ser tudo, isso não chegou para me fazer ficar. Eu queria ter um horário de trabalho decente, queria ter fins-de-semana ou umas folgas de vez em quando, queria ter direito a tirar férias (direito que eu tinha, em teoria, mas do qual nunca me foi permitido gozar. Não tive um único dia de férias durante os anos que trabalhei em Portugal). Queria estabilidade. Queria saber o que era poder andar relaxada, sem medo que o meu patrão acordasse mal disposto ou precisasse do meu posto para algum "afilhado" e me mandasse para o olho da rua. Queria saber que, mesmo que fosse para o desemprego, ia ter direito a alguma coisa (que não tinha). Queria mais respeito, também.

E assim decidi fazer as malas e vir embora. Se, no início, ponderei muitas vezes largar tudo e voltar, agora fico contente por não o ter feito. Agora já sei qual é a sensação de ser respeitada no meu local de trabalho. Agora sei o que é ter um horário concebido para meros mortais, como eu, e não para uma qualquer espécie com super poderes que consegue viver a trabalhar incessantemente. Agora tenho férias. Agora faço viagens. Agora tenho (verdadeiramente) estabilidade financeira. Agora sei que voltar para Portugal ia ser o derradeiro suicídio profissional. Não é uma hipótese que esteja completamente posta de parte, mas está adiada. Não quero voltar. Não quero voltar para o país em que só tinha deveres e não tinha direitos. "Mas podias estar com a tua família", também ouço muitas vezes. Nos meus últimos meses a viver em Portugal, não trabalhei na cidade de onde sou e posso dizer que, apesar de estar à distância de 1 hora e meia de carro, a minha família me via menos do que me vê agora que estou em França.

É com alguma surpresa que vejo as pessoas que em tempos me encorajaram a emigrar, a dizerem-me agora que devia voltar. "Porque quem é que te vai ajudar com os filhos?". Errrr... quais filhos? Sabes de alguma coisa que eu não saiba? E quem é que me ia ajudar em Portugal? Os meus pais ainda têm muitos anos de trabalho pela frente e eu não ia ter possibilidades nem tempo para ter filhos. 

Não tenho arrependimentos da minha decisão de vir embora. Foi a melhor coisa que podia ter feito por mim. Não estou a planear ficar aqui para sempre, não sei o que o futuro me reserva, mas sei que o meu futuro próximo não passa por Portugal. Por isso, deixem-me estar tranquila onde estou. Cada um faz as suas escolhas. Há quem escolha ficar e seja feliz (e ainda bem!). Eu escolhi sair. E agora escolho não voltar. Pelo menos, não agora.







terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Quase de volta a casa e devaneios vários

E quem bate palmas está exausto (clap, clap!), está exausto (clap, clap!), está exaustoooo!

Pois, é isto, gente, estou exausta, daí esta minha introdução espectacular. Gostaram? Óptimo.

Quinta-feira de manhã vou entrar no avião com destino a Portugal e não vejo a hora de aterrar em território lusitano, mas até lá ainda me restam dias muito intensos pela frente. Trabalho, trabalho, trabalho... fazer a mala, fazer as últimas compras de Natal (como chego no dia 24, tenho que levar tudo daqui)... as minhas enxaquecas voltaram a atacar e em grande, só tenho vontade de estar no escuro, de olhos fechados, a sentir o latejar da minha pulsação dentro da cabeça (não porque isso me agrade, mas porque é o que me acontece). Brufen, como eu gosto de ti.

Adiante. 

O meu calendário do advento da Kinder está quase no fim e, a cada chocolate que como, fico mais ansiosa porque é menos um dia que falta para ir embora (e para ser diabética). Estou mesmo com muita vontade de ir para casa. Às vezes dou por mim a pensar que já não sei o que é a minha casa. Que nunca soube. Decididamente, não é Troyes. Não deixo de ver esta cidade como um lugar onde estou de passagem. Uma passagem que já dura há quase dois anos mas, ainda assim, uma passagem. Não sei para onde irei a seguir, mas para Portugal também não vai ser, quase de certeza, porque não há nada lá para mim, exceptuando o bacalhau e as rabanadas que vou enfardar daqui a uns dias. E pão-de-ló. E queijo da serra. Já sinto o colesterol a entupir-me as artérias e ainda nem comecei a comer. Em Janeiro o ginásio cá estará à minha espera! Por agora, o que me espera é o meu país. O meu país que, apesar de em alguns momentos chegar a acreditar no contrário, continua a ser a minha casa. 


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Perguntas de salto e respostas de alto #5

E porque é Dezembro, o mês do Natal, da neve e do frio (que aqui chegou em Outubro, mas pronto) nesta edição da rubrica vamos até... à Suécia! E o que é que vamos lá fazer? Vamos conhecer a Diana.

Não vou ser eu a apresentá-la, já que ela o fez de forma muito fofinha:

Não sei muito bem que queres que diga na apresentação...nunca fiz uma coisa destas, então estou assim meia envergonhadita. 
Sinto-me como na televisão: "Olá, o meu nome é Diana, tenho 27 anos, sou médica-dentista e estou aqui sem maquilhagem no alta definição ahahah....ups! Queria dizer no crónicas de salto alto".
Moro na  terra do frio, das pessoas loiras e com uma língua estranha (mas não impossível): Suécia! Dizem que há muitos ursos e alces por aqui, mas devo confessar que ainda só os vi em fotos, por isso digo sempre à minha mãe que estou relativamente segura! =) 
Moro com a pessoa mais "anormal" de sempre (isto dito com amor, hehe) e  que, consequentemente, se tornou parte da minha família, o que ajuda porque, quando se está longe, é sempre bom ter um bocadinho de "casa" connosco.
Neste momento, aguardo ansiosamente a chegada do Natal para voltar a casa e encher o peito de família, amigos e coragem para continuar longe de tudo o que me é mais próximo. E, claro, por causa das rabanadas e do bolo rei...ahaha.

Apresentações feitas, vamos à entrevista! (Nota: a Diana é uma pessoa muito à frente e mandou-me as respostas dela escritas de acordo com o novo acordo ortográfico. Nota da nota: eu não sou uma pessoa nada à frente e escrevi-as à moda antiga. Antes de se indignarem: a culpa é toda minha.)

1 - Há quanto tempo saíste de Portugal?

Esta é daquelas perguntas que quase que faz "doer" por te aperceberes de como o tempo passa. Quase 4 anos (para ser mais exacta: 3 anos e 10 meses).

2 -  O que te levou a tomar a decisão de sair?

Antes mesmo de terminar o curso, já tinha a noção que uma vida digna em Portugal ia ser complicada de atingir, então sempre tive a ideia de trabalhar fora. Claro que ainda tive momentos de ingenuidade e acreditei num mundo cor-de-rosa e cheguei a mandar 3403090239 currículos para sítios onde nem sequer chegaram a olhar para eles. (Tivemos todos esses momentos, não te sintas mal). Nunca me imaginei onde estou agora...mas foi uma oportunidade que chegou de um dia para ou outro. Isto digo literalmente, porque só soube da entrevista no dia anterior e era em Lisboa. (Para quem não sabe, a Diana é do Porto). Fui, correu bem e 4 anos depois ainda não congelei neste frio! 

3 - A saber o que sabes hoje, voltavas a tomar esta decisão?

Sim! Não me arrependo. Não é o mar de rosas que toda a gente que vive em Portugal acha que é a vida dum emigrante. É duro e custa ver que a vida em casa (Portugal) não pára. Perdes muitas coisas. Mas cresci, ganhei experiência, sei mais do mundo e de mim mesma. Custou e custa, mas vale a pena. Fez e ainda faz todo o sentido. (Faço minhas as tuas palavras)

4 - Descreve a tua experiência fora de Portugal em 5 palavras:

Crescimento, Saudade, Experiência, Liberdade, Autonomia.

5 - 3 coisas (coisas, não pessoas) que trarias de Portugal, se pudesses:

O mar (é uma coisa, não? :p), (ora aí está uma boa pergunta) o café (e os cafés onde passas horas com os amigos) e a francesinha (sendo eu do Porto há coisas que não podem faltar) (I hear you, sista')

6 - Em que é que sentes que a tua vida mudou, para melhor e para pior, com a tua saída de Portugal?

Ganhei uma autonomia que acho que em Portugal seria mais complicado de ter. (Vamos chamar-lhe "impossível".) Se calhar, ainda teria de viver às custas dos meus pais ou teria de fazer mais sacrifícios para conseguir a qualidade de vida que tenho hoje em dia. Consigo ter liberdade (e um bocado mais de estofo económico) para viajar e conhecer um pouco mais do mundo, outras culturas e pessoas. 
Mas, também, e nas palavras dos pequeninos: estou mais crescida =)
Para pior, mudou no sentido de ter perdido momentos que não vou voltar a ter. Estar a quase 4000km de casa nem sempre é fácil, principalmente quando precisas de "casa".

7 - Um conselho que darias a ti própria, se pudesses voltar atrás no tempo:

Não tenhas medo, nada dura para sempre e no fim tudo corre bem.

8 - Um conselho para a nossa geração (e para as futuras) dentro e fora de Portugal:

O conselho que daria a mim mesma: não tenhas medo...vai em frente, se é o que queres. Se correr bem...espectacular! Se correr mal... é experiência e aprendeste, de certeza, como fazer melhor para a próxima. No fundo, coragem e mente aberta =)

9 - O que achas essencial mudar em Portugal?

Aprender a dizer que não, a não nos deixarmos  pisar só porque temos medo de perder o emprego ou a posição. E de deixarmos de nos queixar... nós temos isso intrínseco em Portugal... somos sempre os piores em tudo, não sabemos fazer nada, nem somos ninguém. Não nos damos o devido valor. Depois de sair de Portugal é que te vais apercebendo que comparado com o resto do mundo...nós temos coisas mesmo boas! =)


10 - Onde te vês daqui a 5 anos? E daqui a 10?

Isso é uma pergunta muito difícil. A minha mudança para a Suécia foi de um dia para o outro, por isso é difícil saber onde me vejo daqui a 5 ou a 10 anos. Posso dizer que daqui a 5 anos ainda me vejo fora de Portugal... mas com umas "canalhitas" pequeninas a correr a minha volta!
Daqui a 10 espero que o nosso "cantinho a beira-mar plantado" já esteja mais estável de modo a que nós todos que estamos longe, e se ainda o desejarmos, voltemos para casa....and live happily ever after. =) 


A Diana, no paraíso tropical que é a Suécia!

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

La vie en France #12

Bem, parece que ultimamente só tenho feito posts sobre este tema, mas a verdade é que é um assunto sobre o qual há sempre alguma coisinha a dizer.

Hoje trago-vos mais um exemplo da boa eficiência francesa, que eu adoro e que me inspira todos os dias da minha vida (só que não).

Aqui em França, quem vive numa casa alugada tem que pagar um imposto de habitação. A cartinha chega pelo correio, com um destacável que se pode assinar e mandar de volta, também, pelo correio, num envelope próprio, que eles também fornecem. Até aqui, tudo parece muito simples. Pois que, eu enviei o meu pagamento e 15 dias depois ainda não tinha sido debitado. Liguei para lá e disseram-me, muito tranquilamente, para ter calma porque com isto dos atentados tinham alargado os prazos. Hoje, uma semana mais tarde, continuam a não ter debitado o dinheiro. Tentei ligar, mas só tive direito a ouvir o atendedor de chamadas automático, pelo que peguei em mim e me dirigi pessoalmente à repartição das finanças. Quando, finalmente, chegou a minha vez de ser atendida, expliquei o meu problema e a funcionária limitou-se a olhar para mim, impávida e serena e a encolher os ombros. Ficámos ali a olhar uma para outra durante uns segundos, em silêncio, durante os quais apenas pestanejámos e, quando eu já me estava a perguntar se ela sofreria de algum tipo de autismo, eis que ela decide falar:

"3 semanas realmente já é algum tempo. Mas espere mais uma semana e, se continuar igual, passa aqui e deixa-nos um cheque."

Ok, até aqui tudo bem. Mas, uma vez que tinha o meu livro de cheques comigo, perguntei se não podia deixar já um cheque e ficar descansada, sendo que a resposta que tive foi mais um encolher de ombros, mais um suspiro e um muito aborrecido "Se você quiser". Sim, eu queria. Eu queria pagar a porcaria dos impostos e não ter que pensar mais no assunto. Passei o cheque e, quando lho dei para a mão, perguntei "Não vão descontar o dinheiro duas vezes, pois não?". Pois que, senhora criatura de Deus sorri e diz (com mais um encolher de ombros, pois claro): "É assim, pelo seu bem, espero que não!". Como assim, espera que não? Se eu deixar aqui o cheque não fica logo registado que está pago? Não anula o outro pagamento que mandei por correio e que anda só-Deus-sabe-onde? "Não". Aparentemente, os computadores e a Internet ainda não chegaram às finanças francesas.

Moral da história: vim embora com o cheque e vou esperar mais uma semana. Sendo que, a julgar pelo discurso de hoje, daqui a uma semana arrisco-me na mesma a pagar duas vezes o mesmo imposto. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

La vie en france #11

Nos últimos dois dias estive em Paris para um congresso. Não fazia grande questão de ir, mas lá fui meter-me na confusão e tentar aprender alguma coisa de novo.

Foram dois dias muito animados e extremamente cansativos (mas ponham extremamente nisso), acho que preciso de dormir uma semana inteira só para recuperar. 

Foi por estarmos tão cansados ontem ao fim do dia, que decidimos que merecíamos apanhar um táxi para ir do Palácio dos Congressos até à gare. Calhava bem haver uma praça de táxis mesmo perto do palácio, nós estávamos carregados com malas, carteiras e sacos e mais sacos da exposição e lá fomos nós, contentes da vida porque não íamos passar, mais uma vez, pela agonia que é andar no metro de Paris. A coisa começou bem assim que saímos do Palácio: um vendaval com rajadas a 200km/h (estou a exagerar, mas é para perceberem que estava mesmo muito vento), chuva, frio. Nos 40 metros que separavam a porta do Palácio da porta do táxi, deu-se lugar a toda uma epopeia digna duma cena de filme: guarda-chuvas a partir, cachecóis contra a cara, saias pelos ares, qual Marilyn Monroe, qual quê. Lá entramos no táxi. Ufa.

Senhor Taxista arranca. Já sabíamos que íamos perder o comboio das 18h12, mas talvez desse para apanhar o das 18h42. Senhor Taxista diz que vai ser difícil, porque está muito trânsito. Primeira coisa que se deve saber sobre o trânsito em Paris: ninguém respeita ninguém. Segunda coisa que se deve saber sobre o trânsito em Paris: ninguém apita para vos chamar a atenção duma asneira que tenham feito; as pessoas apitam para vos avisarem de que vão fazer uma transgressão e precisam de espaço, do género "arreda-te para onde puderes que está vermelho, mas eu quero andar". Senhor Taxista resolveu que nos ia "comer em molho de cebolada" (expressão muito bem aplicada pela Cláudia) e ganhar uns trocos extra para um café e andou a fazer um passeio turístico pela cidade, em vez de nos levar directos. Como se não bastasse, senhor taxista deve ter obtido a carta de condução na caixa dos Chocapic, pois parecia nunca ter ouvido falar de regras de trânsito. Está vermelho? Não faz mal, é para andar. Ah, mas está verde para os outros carros? Azar, eles que passem por cima. Estão peões a atravessar a rua? Contornem o carro, que se têm perninhas é para andar. A dada altura, senti-me como se estivesse numa cena do "The Walking Dead", quando uma multidão de gente que queria atravessar a rua avança furiosamente em direcção ao táxi que, por sua vez, quase conseguia atropelar dois ou três. Foi aqui que a Cláudia decidiu fechar a janela, pois mais valia aguentar os 27 graus que estavam dentro do carro do que levar um banano dum transeunte enraivecido. 

Finalmente, começámos a aproximar-nos da gare. Senhor Taxista passa mais um semáforo vermelho. Desta feita, foi embater numa mota, atirando a dita cujo e o respectivo condutor ao chão. Senhor Taxista nem pestaneja. Depois do dia épico que estávamos a ter, eu vi o homem a cair e pensei "está morto" e tirei o cinto de segurança, a preparar-me para sair do carro, assim como outro dos meus colegas. Senhor Taxista lá pensou que seria boa ideia sair do carro e ir avaliar os estragos. Não houveram estragos. O homem estava bem e de saúde, sem nada partido. Senhor Taxista atirou as culpas para o autocarro que estava quieto e sossegado sem estorvar ninguém.

Chegámos à gare. Perdemos o comboio das 18h42, mas pudemos ir ao Starbucks beber um Gingerbread latte e começar a recuperar de toda esta emoção.


Gingerbread latte. Aconselho vivamente.