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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Assim vai o mundo

Algo de muito errado tem que se passar, quando se lêem notícias como esta. Já foi há alguns meses que dei com ela, mas nunca me apeteceu debater muito o assunto, porque é tão deprimente que me faltavam as forças. Mas, ultimamente, tenho andado num estado de espírito de "estou farta desta merda toda", portanto aqui vai.

Na notícia de que falo, podemos ler que, pela primeira vez, a riqueza de 1% da população mundial equivale à mesma dos 99% restantes. Sim, leram bem, a proporção é mesmo esta. E estamos longe de poder dizer que é surpreendente, porque não é.

Basta pegar no exemplo de Portugal: um país em que a desigualdade se agrava de dia para dia. Um país em que "trabalho é trabalho" e ninguém se importa de trabalhar horas a mais que nunca vão ser pagas, de nunca ter férias, de nunca ter estabilidade. Mas ninguém faz nada e a coisa vai andando assim: a malta vai para os cafés queixar-se, mas depois a única coisa que importa é que dê para "desenrascar". Para isso e para pagar o iPhone em prestações, mas isso já é tema para outro texto.

Em Portugal, somos demasiado brandos para o nosso próprio bem. Vejam os franceses: não que tenha uma particular admiração por eles (que não tenho), mas lá protestar sabem eles - e bem! Não há cá dramas televisivos porque "ai, meu Deus que os polícias subiram a escadaria da Assembleia da República, ai os doidos". Se é para haver drama televisivo, é porque houve efectivamente um drama na vida real. Em França também há crise, e ela nota-se bem, mas duvido que algum dia eles se rebaixem ao ponto a que nós nos rebaixámos. A minha própria assistente disse-me "mas porque é que vocês emigram? Deviam ficar e lutar pelo que têm direito". Pois é. Devíamos. Mas acho que já estamos num ponto em que perdemos toda a fé, toda a esperança. Sabemos muito que somos governados por crápulas arrogantes, gananciosos, corruptos e, o pior de tudo, incompetentes. Mas já não temos esperança de que isso algum dia mude, o que leva muita gente a lembrar-se do Salazar com uma certa nostalgia.

Uma pessoa tem a sensação de que anda tudo atrás do mesmo, que é ganhar dinheiro, seja como for. E isso faz-nos perder a esperança nos patrões e nos políticos. Faz-nos perder a esperança no país e, se formos a ver bem, no mundo. Porque não, não somos só nós. Seremos um dos piores exemplos, mas não estamos sozinhos. Não deixa de ser triste ouvir dizer Europa fora que quem queira enriquecer honestamente, não pode ir para Portugal. Isso, quando sabem sequer o que é Portugal e onde fica, o que nem sempre é garantido. 

Já não sei qual será a solução. Já não sei, sequer, se haverá solução. Quero acreditar que sim. Mas, para isso ser possível, é preciso começar a mudar a mentalidade de quem manda e de quem é mandado.

Para terminar, deixo-vos com um texto do Ricardo Araújo Pereira que acho que retrata muitíssimo bem aquilo que eu própria penso sobre uma das piores coisas que existe no mercado de trabalho português: o estágio profissional.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

La vie en France #10

Aqui por França os ânimos têm andado muito exaltados, e não é para menos. A cada dia que passa há mais uma novidade que é, geralmente, má.
Não me vou pôr aqui a divagar sobre os direitos humanos nem sobre a discriminação. Também não me vou pôr com discursos (aparentemente) moralistas, como tenho lido muitos ultimamente, sobre o facto de nos preocuparmos mais com as vidas dos franceses do que com as vidas dos sírios, porque isso é ridículo. Uma vida humana é uma vida humana, tanto me faz se é dum português, dum francês, dum sírio ou do que quer que seja. Agora, a partir do momento em que eu vivo em França, parece-me óbvio que os atentados aqui me preocupam mais que os atentados na Síria. Não é discriminação, é instinto de sobrevivência. 

Se me perguntarem se me parece um autêntico abuso que a Europa (não só a França) tenha, durante anos e anos, mantido as suas portas abertas a quem quisesse vir para aqui viver, trabalhar (ou viver da segurança social, como imensos fazem) e agora seja este o agradecimento, a resposta é que sim, é um abuso. Não são todos iguais, obviamente, mas a verdade é que até os mais pacíficos não se esforçam por se integrarem e parece que estão sempre de pé atrás e revoltados com a cultura ocidental. Na maioria das vezes, não são os muçulmanos que são discriminados: são eles que discriminam. E de que maneira.

Também não sou contra a vinda dos refugiados para a Europa. São pessoas numa situação trágica, que precisam de ajuda. Agora, que o facto de os recebermos nos possa estar a pôr em perigo chega até a ser ridículo.

Assim como são completamente ridículas as falhas abismais de segurança que continuam a haver em França. Ontem à tarde fui para Paris, tínhamos bilhetes para subir à Torre Eiffel, o que não foi possível, uma vez que estava fechada, mas decidimos na mesma aproveitar a reserva do hotel e passear. Não posso dizer que tenha tido medo, porque estaria a mentir. Mas também não dá para se estar 100% à vontade. Há sempre a pergunta "E se?". Porque, verdade seja, em termos de controlo de segurança, quase nada mudou. Em qualquer loja onde se queira entrar, há um segurança à porta a verificar sacos e carteiras. Mas, hoje de manhã apanhei o comboio e o controlo para estas situações continua a ser zero, o que não deixa de ser desconcertante. Explodir com a secção de frescos do supermercado, alto lá, que não pode ser, mas porque não fazer o isso com o comboio intercidades? Ridículo. 

O meu namorado volta hoje para Portugal. Chegou bem ao aeroporto, apesar de toda a confusão que se instalou em Paris esta manhã. Antes de embarcar, mandou-me uma mensagem a dizer que o deixaram entrar no avião sem quererem verificar o cartão de cidadão. Ah, claro, perfeitamente normal. França só foi vítima de vários atentados mortais este ano. França só está em estado de emergência. É perfeitamente normal deixarem entrar pessoas num avião sem verificarem a identificação. Lá controlar as dimensões das malas de cabine, isso sim, é que é realmente importante.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Esboço de esperança

Quero ser optimista. 
Quero acreditar que tudo acontece por uma razão, por uma qualquer força maior que em nada depende da nossa vontade. Quero acreditar que tudo nos leva a algo, mesmo aquilo que parece que não nos leva a lado nenhum. Quero acreditar que todas as desgraças que nos apoquentam não são mais do que uma pequena pedra nessa estrada que se chama felicidade. Quero acreditar que depois da tempestade, vem a bonança.
Quero acreditar em tempos melhores. Quero sonhar com dias de mais união, de mais garra e força de vontade, de capacidade de mudar as coisas. Quero acreditar que as coisas vão mudar. Porque têm que mudar, é a única solução. 
Quero acreditar que somos capazes de aprender com os erros.
Quero acreditar que juntos vamos ser capazes de lutar para mudar. Mudar muito, talvez tudo. Mudar de vez.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

What is privilege?

Huffington Post publicou este vídeo, super simples e super interessante, sobre "privilégio". Acho que vale mesmo a pena "perderem" dois  minutos do vosso tempo para o verem e, quem sabe, ganharem uma nova perspectiva sobre o assunto. Não é super emocionante, nem vai mudar a vossa vida, mas vale a pena.

Aproveito para relembrar que o blog agora tem uma página de facebook (palminhas!!!). Vá, toca a ir fazer like e, quem sabe, haverá uma surpresa.



terça-feira, 30 de junho de 2015

Sobre essas coisas que se dizem dos emigrantes

Falo muito sobre a questão de ser emigrante (ou imigrante, dependendo do país ao qual me estou a referir) mas acho que, mais do que nunca, é um assunto que está em voga e sobre o qual há milhentas opiniões, coisas a dizer e formas de ver as coisas.

Pessoalmente, sou uma grande defensora de que cada um faz o que quer, desde que não aborreça ninguém. Não gosto de criticar, nem de apontar o dedo, seja em que aspecto for. E na questão da emigração sou igual: não critico quem escolheu sair (seria, no mínimo, ridículo, uma vez que também o fiz), nem critico quem ficou. No entanto, os que ficaram (e, se ficaram, é porque estão bem como estão e ainda bem) gostam imenso de mandar bitaites, de nos intitular das mais variadas coisas (e, raramente, elogiosas), de atirar pedras e de nos criticar. 

Nós, os que saímos, somos os ingratos. Somos ingratos, porque não soubemos aproveitar o que Portugal tem para nos oferecer. Não soubemos dar valor ao que o país nos dava. Não soubemos (ou não quisemos) agarrar com unhas e dentes os estágios, os trabalhos precários, os horários infindáveis, as humilhações diárias, as coisas que nunca mudam. Não nos sujeitámos aos tachos e às cunhas. Não quisemos aceitar ter que viver de subsídios de desemprego ou de salários que nos obrigam a fazer mais contas por dia que um trabalhador da NASA. E, por tudo isto, somos ingratos. Porque devíamos ter ficado num país onde não temos futuro e, pior ainda, não temos presente. Onde não se vive, mas se sobrevive. 

Nós somos os desertores. Somos os cobardes que viraram as costas ao país nos momentos difíceis, em vez de ficarmos a lutar por melhorar as coisas. Sim, porque teria sido muito mais produtivo ter ficado em Portugal, a viver da Segurança Social ou dos salários dos nossos pais e avós (como se eles já não tivessem que esticar os salários deles quanto bastasse). Teria sido mais produtivo trabalhar para pagar impostos e uma segurança social moribunda e chegar ao fim do mês com a conta bancária vazia. Em vez disso, escolhemos virar as costas, abandonar tudo e todos. Só que nós não abandonámos nada, nem ninguém. Não conheço um emigrante português (e conheço muitos) que não mande dinheiro, o dinheiro pelo qual trabalhamos, para Portugal. Que não se preocupe em como estão as coisas, que não tenha um familiar ou amigo em terras lusas para o qual envie, constantemente, ajudas. Não conheço (embora, não tenha dúvidas de que devam existir) um único emigrante português que não tenha mantido uma conta em Portugal, para onde todos os meses é enviado dinheiro, mesmo com todos os riscos que sabemos que corremos, Porque gostamos de ler nas notícias que o dinheiro enviado por emigrantes ajuda o nosso país, esse país que nos viu crescer e que nos deu asas e coragem para voar. Nós não nos esquecemos, nem virámos as costas. Nós gostamos de sentir que estamos a ajudar. E a triste verdade é que podemos ajudar muito mais quando estamos fora, porque dentro não nos são dadas as condições para o fazer.

Tenho lido muita coisa que se diz sobre os emigrantes. Muita coisa dita por pessoas que, felizmente, não sabem o que é enfrentar adversidades. Pessoas que não sabem o que é mandar dezenas de currículos todos os dias para nada. Pessoas que não conhecem a instabilidade do que é trabalhar a recibos verdes. Pessoas que nunca tiveram que se preocupar com estágios profissionais ou contratos a termo. Pessoas que nunca choraram por causa de um futuro que nunca vai chegar. Normalmente, não ligo a nada do que dizem, porque são pessoas que fazem parte duma minoria que está completamente deslocada da actualidade e que vivem fora da realidade do país. Mas, há uns dias, li um comentário a um texto escrito por um casal de retornados a Portugal que dizia mais ou menos isto: "Retornados? Atirem-nos aos tubarões" (com vários erros de português que não reproduzi aqui). Não precisam de nos atirar aos tubarões, nós já o fizemos sozinhos quando decidimos sair. Sim, porque viemos trabalhar e ganhar dinheiro, mas que ninguém se iluda e que ninguém pense que nos facilitam a vida cá fora. Se o desprezo que sentem por nós é assim tão grande, então não somos nós que não vos fazemos falta, são vocês que nos são completamente dispensáveis. A nós, os ingratos e os desertores que, na realidade, nunca esquecemos o país. A nós, que recebemos o salário ao fim do mês e enviamos parte dele para Portugal, a troco de nada. A nós, que nunca vos esquecemos, que todos os dias tentamos mudar a imagem que os outros têm do nosso país. A nós, que estamos aqui a lutar por nós, mas também por vocês.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Coisas que não entendo

Nos meus (quase) 27 anos de vida, sempre tive tendência a ter mais amigos rapazes do que raparigas. Não sou de andar aos abracinhos e aos guinchos nem de ir com companhia para a casa de banho, portanto, a coisa sempre foi funcionando assim. Neste momento, já tenho um bom grupo de amigas do sexo feminino, que fui seleccionando e acumulando ao longo dos anos e os amigos homens lá foram ficando para trás (verdade seja que, às vezes, também são difíceis de aturar).
Isto tudo para dizer que há uma coisa que não entendo. É ponto assente que a maior parte dos homens gosta de se gabar, desde tenra idade, que andou com esta e com aquela e que ainda teve tempo de dar umas voltas com a vizinha do andar de baixo. Tudo muito bem, cada um faz o que quer, não estou aqui a julgar ninguém. Mas, depois, quando se fala em casar ou, pelo menos, em assentar arraiais, querem uma virgem. Ora beeeem... sou só que noto aqui uma ligeira, pequenina, incompatibilidade? Se todas as mulheres esperassem virgens até ao casamento, primeiro arriscavam-se a uma vida de infelicidade porque vai daí que o gajo não faz a mínima ideia do que está a fazer? Depois do papel assinado, não é impossível voltar atrás, mas vai-se ter muito trabalho que poderia, facilmente, ter sido evitado. Segundo, ia ser um bocado difícil aos homens andarem com esta e com aquela porque esta e aquela iam estar a guardar-se para o casamento. Hipocrisia? No mínimo. Isto de querer o melhor dos dois mundos, às vezes, é complicado. 

Outra coisa que não entendo, é que todos gostam de olhar para o mulherio com quem se cruzam e tecer comentários, uns mais elogiosos que outros. Mas ai do gajo que fizer isso à irmã mais nova ou, pior ainda, a uma filha! Pois, tenho uma novidade para vocês: não há irmã mais nova, namorada, esposa, mãe, prima ou filha que escape a uns olhares mais atenciosos de vez em quando e a um ou outro comentário (e coisas piores, de vez em quando, mas não estou a tentar provocar um AVC a ninguém). Aprendam a viver com isso. Enquanto os homens gostarem de assediar, as mulheres vão ser assediadas. Nós já fizemos as pazes com o assunto, mas parece-me que os homens não. 

Não estou, de maneira nenhuma, a defender a promiscuidade (masculina ou feminina), mas acho essencial existir um meio termo. Quando me dizem "quando for a tua irmã mais nova, vais perceber" posso dizer, sinceramente, que não, não vou perceber. Espero, do fundo do coração, que nenhuma das minhas irmãs mais novas case com o primeiro pamonha que encontrar, porque isso tira a piada toda à coisa e não lhes vai dar oportunidade de descobrirem o que realmente querem e gostam. E digo o mesmo em relação aos meus irmãos mais novos (sim, somos uma grande família). Ao mesmo tempo, não fazia sentido querer que os meus irmãos, porque são rapazes, andassem com meio mundo e ficar à espera que as minhas irmãs se fechassem em casa a sete chaves, porque são meninas e parece mal. Se elas quiserem e forem felizes assim, isso já é outra história, mas quero que elas pensem pela cabeça delas e que não sejam influenciadas pelos preconceitos de uma sociedade extremamente desigual. Igualdade é podermos ter todos direito às mesmas escolhas sem sermos julgados de maneira diferente, com base no nosso género. E tudo começa em casa, quando nos parece bem que o nosso filho tenha 5 namoradas diferentes ao mesmo tempo, mas a nossa filha não pode sair de mini-saia à rua.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Mais um texto sobre as licenciaturas em Portugal...

Agora chamam-se "mestrados integrados", mas toda a gente sabe que vai dar ao mesmo. E vamos falar sobre isto porquê? Porque acho que é uma temática que ainda não foi debatida o suficiente (é favor ler esta frase com uma entoação irónica).
Apesar de ser um assunto mais conhecido que o tremoço, continua a não levantar tanto interesse como o campeonato de futebol ou os vestidos dos Globos de Ouro mas, fazer o quê, as coisas são mesmo assim. E é pena. É pena que sejamos uma geração que se indigna tanto e, por outro lado, tão pouco.

Ultimamente ouve-se muita gente dizer que Portugal tem licenciados a mais e, logo a seguir, muita gente a responder que não, que nunca podem ser a mais.

O que é que eu acho? 

Primeiro, acho que em Portugal há, claramente, a cultura do diploma e do "sô dotor" e do "sô engenheiro". Toda a gente acha que tem que tirar um curso. Um curso qualquer, pouco importa se gosta, se tem jeito, se vai ter emprego, o que importa é ter o curso, o diploma e um título. Continuamos a ser um país em que se dá mais valor a alguém com um curso superior que a uma empregada das limpezas. Esse é o primeiro ponto em que estamos tão estrondosamente errados. Todas as pessoas valem o mesmo como seres humanos, independentemente do que fazem para ganhar a vida (desde que não andem a roubar ou a matar, vamos manter-nos dentro da legalidade, vá). Não vai servir de muito um país cheio de doutores se depois não vamos conseguir encontrar ninguém que seja capaz de nos explicar porque é o carro está a fazer um barulho estranho ou substituir os azulejos da casa de banho. Toda a gente devia ter o direito a poder ter uma boa qualidade de vida, independentemente do que faz (ao contrário do que temos agora, em que, independentemente do que façamos, estamos sempre na merda e para não estarmos ou temos que ter cunhas, ou primos ou saber do segredo de alguém). Eram precisos salários mais justos, impostos mais baixos, era preciso darem pernas às pessoas e às famílias para elas poderem andar. Era preciso acabar com a cultura instalada dos estágios, essa praga, que não passa duma valente treta para nos dar a ilusão de que estamos a diminuir o desemprego. Era preciso acabar com a mentalidade de que "o que é bom é ter trabalhinho, mesmo que trabalhes 10 horas por dia, 6 dias por semana, para teres 500€ na conta ao fim do mês, porque mais vale isso do que estar em casa!". Nós queremos trabalho, não escravatura. Porque é que a senhora que nos limpa a casa não pode ter direito a ir passar uns dias ao Algarve com a família? Não trabalhou o ano inteiro? Pois então, tem tanto direito a descansar como qualquer outro. 

Segundo, Portugal tem, de facto, licenciados a mais. Mas também tem licenciados a menos. Passo a explicar. Na hora de decidir quantas vagas vão ser abertas para que cursos, é preciso ter em consideração as necessidades do país, no presente e no futuro, ou então dá cagada (como está a dar). Não se podem formar dentistas, enfermeiros, psicólogos, designers, entre tantos outros, aos pontapés, como se tem feito. Nem se podem continuar a deixar os médicos que trabalham no serviço nacional de saúde completamente sobrecarregados, como estão. É preciso fazer as coisas conscientemente. Portugal tem, neste momento, tantos licenciados a serem formados em algumas áreas que até para os mercados de trabalho estrangeiros começam a ser demais e as portas estão a fechar-se, cada vez fazem mais exigências e querem mais anos de experiência. É preciso reduzir drasticamente o número de vagas em muitas áreas e aumentar noutras. Lá está, é preciso fazer as coisas com cabeça e não aos pontapés e ao melhor estilo de República das Bananas, no qual somos verdadeiros especialistas.
Não tarda muito vamos ser o país onde se vai poder fazer uma sessão de psicoterapia enquanto se pagam as compras no hipermercado porque a menina da caixa vai ter uma licenciatura (mestrado integrado, desculpem!) em psicologia e depois vamos querer encontrar um serralheiro e vamos correr o país duma ponta a outra sem sermos capazes de encontrar nenhum que faça a mínima ideia do que está a fazer. 

sábado, 30 de maio de 2015

Afinal eu tenho mesmo razão

Não é que eu esteja minimamente admirada com isso, mas é para não dizerem que eu falo mal só porque sim... fica aqui a notícia com a prova dos bons hábitos de higiente em França. Quatro em cada dez admite que não usa o chuveiro diariamente, faltou dizerem que outros quatro tiveram vergonha de admitir. E recusam-se a aceitar que a falta de higiene está ligada a muitos problemas de saúde? Gente, não é normal tanta gastroenterite. NÃO É. Tenho dito.

Aguarda-me mais um longo Verão... 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Falando de coisas sérias

Há uma coisa que me incomoda imenso quando penso nos meus compatriotas portugueses, os de Portugal e os que estão espalhados pelo mundo. A seguir à corrupção, acho que é o nosso maior defeito. E do que é que estou a falar? Da mania que temos de que não prestamos para nada. Daquele hábito extremamente irritante que os portugueses têm de abrir a boca para falar do seu país e só terem comentários negativos a fazer. Porque o país não presta, porque as pessoas não prestam, porque ninguém trabalha, porque ninguém sabe fazer nada e porque só o que vem de fora é que é bom. Meus amigos que fazem isto, tenho duas coisas a dizer:

  1. Estão redondamente enganados;
  2. Enquanto continuarmos a agir assim, ninguém nos vai dar valor.
É verdade que o nossos país tem montes de defeitos. Para mim, o pior é a corrupção. A grande e a pequena, é o que está a minar completamente o país. É verdade que somos pobres e pequeninos. Mas não é por isso que somos mais atrasados que os outros. Eu vim para França habituada a uma coisa tão simples como a ASAE que, parecendo que não, é algo que faz muita falta. E cheguei aqui e tive que lidar com coisas que me deixam arrepiada, como ir à confeitaria, pedir um croissant e a mesma senhora que, há dois segundos estava a fazer trocos na caixa, pega no que pedi directamente com a mão (sem a lavar, obviamente) e mo entrega, sem sequer pestanejar. 
Desta última vez em que estive em Paris achei imensa graça a um grupo de turistas portugueses que encontrámos numa estação de metro e um deles apontou à volta e disse "Isto é uma chungaria!". E é mesmo! E é preciso que comecemos a ser capazes de olhar para o que temos de bom, em vez de nos concentrarmos só no que temos de mau. É preciso que as pessoas deixem de achar que Portugal é uma aldeia, onde as estradas são caminhos para carros de bois, onde todas as mulheres têm bigode e andam de lenço preto na cabeça e todos os homens têm barriga de cerveja e mastigam um palito. Porque é isso que acham e a culpa é nossa! A culpa é nossa que baixamos a cabeça e não nos orgulhamos minimamente do nosso cantinho que, mesmo com todos os seus defeitos, continua a ser o país mais bonito do mundo. É a nossa casa.
Quando nos acusam de que não trabalhamos, de que não merecemos mais do que a miséria que nos dão, nós temos que levantar a cabeça e bater o pé. A começar pelo bando de incompetentes que nos governa e que faz dos portugueses o que quer e a acabar no resto do mundo. Enquanto nos comportarmos como uns inúteis que não são merecedores de coisa nenhuma, é exactamente isso que vamos ter: coisa nenhuma.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Já agora, também tenho uma opinião a dar

Ora bem, parece que o facto do nosso Presidente da República ter dito que eram precisas medidas para fazer com que os nossos jovens emigrantes voltem está a criar uma onda de indignação. Eu também tenho uma ou duas coisas a dizer sobre o assunto.

Primeiro: não estou indignada. Acho, no mínimo, normal (e, até, inteligente) que queiram que a gente volte. Dum momento para o outro, o país vê-se a ficar sem uma geração extremamente importante: a geração que estudou. que trabalha, que paga impostos, que faz descontos para a Segurança Social e que, consequentemente, assegura as reformas de muita gente e, a cereja no topo do bolo, que tem filhos para que sejam eles, um dia, a assegurar tudo isto. Portugal está a ficar um país de velhos, a taxa de natalidade a descer, cada vez mais e mais jovens a virem embora porque a nossa casa não nos oferece condições decentes.

Segundo: eu adorava voltar.
Agora, vamos explorar um bocado esta parte da questão. Não vou perder tempo a descrever a minha situação em Portugal durante os dois anos e meio em que aí estive depois de sair da faculdade. Já todos estamos cansados de ouvir falar de recibos verdes, descontos absurdos para impostos e segurança social, de horas de trabalho que nunca chegam ao fim (mas alguém se fica, realmente, pelas 40 horas semanais?), de folgas que não são respeitadas e férias que nunca chegamos a ver e do dinheiro, que tem que ser muito bem partido, repartido e esticado para chegar ao fim do mês com as contas todas pagas e sem passar fome. Vamos, antes, analisar a minha vida em França:
Trabalho 35 horas por semana, maravilhosamente repartidas em 3 dias em meio. Ora, para que fique tudo muito bem explicado, isso faz 3 dias e meio de trabalho e 3 dias e meio de descanso por semana. Sim, eu estou de folga durante metade da semana e trabalho a tempo inteiro. Tenho um mês e meio de férias por ano, além das já mencionadas folgas, férias essas que são remuneradas e, mais importante ainda, respeitadas. Se precisar de pedir para trocar dias de trabalho, sair mais cedo ou entrar mais tarde, não preciso de sofrer por antecipação, transpirar e ter pesadelos nos quais sou imediatamente despedida só por ter tido a "audácia" de pedir um favor. E o meu salário? Bem, nem vamos entrar por aí. Em Portugal, apesar de ter que fazer alguma ginástica e uma vida minimamente regrada, já ganhava aquilo que se considera como "não é mau" (adoro esta expressão, vocês não? Ninguém quer "não estar mal", nós queremos estar bem), mas aqui nunca tenho que me preocupar se vou ter dinheiro que chegue para a renda, para o supermercado, para comprar os voos para ir a casa. Claro que não posso comprar tudo o que me aparece à frente, mas faço aquilo a que se pode chamar uma vida "desafogada", sem grandes preocupações ou contas de maior, posso ir comer fora, posso ir ao cinema, posso fazer compras, posso viajar e ainda me sobra dinheiro. Aliás, espantam-me imenso os maus resultados a matemática em Portugal, porque desde que cá estou que me apercebi que se há país onde uma pessoa é obrigada a fazer contas é o nosso, chega a ser mesmo uma questão de sobrevivência. Não quero com isto dizer que a minha vida seja perfeita. É muito difícil estar longe de tudo e de todos. Não há adjectivos, lágrimas ou tentativas de descrição suficientes, só quem passa por isso é que sabe como é. Deixei os meus irmãos, os meus pais, os meus avós, o meu namorado, os meus amigos, o meu país, a minha praia, as meias de leite e as torradas, os pastéis de nata e as francesinhas, o meu rio Douro e as minhas esplanadas à beira-mar. Para vir viver sozinha, a mais de 1000 km de tudo e todos que alguma vez conheci.
E agora querem que eu volte? Então arranjem-me estas condições no meu país. Vá, já não vou ser assim exigente, posso ceder no horário de trabalho que com 40 horas também ninguém morre (mas são 40 e não 50, está bem?) e aceito uma ligeira redução no ordenado. Fica assim combinado e vou já fazer as malas. Ah, mesmo assim não vão conseguir proporcionar-me isto tudo? Então lamento, mas não vai dar.